Archive for the ‘Poesias’ Category

POESIAS

Domingo, Agosto 1st, 2010

RESSUSCITA-ME!.

Vladimir Maiakóvski

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.

Vladimir Maiakovski (1893-1930)

RESSUSCITA-ME

Belíssima adptação de Caetano Veloso para a poesia de Vladimir Maikovski.

Talvez, quem sabe, um dia

Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa
eles a ressuscitarão
O século 30 vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo que não podemos amar na vida
Com o estrelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me
Ainda que mais não seja
Porque sou poeta e ansiava o futuro
Ressuscita-me
Lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida
Para que não mais exista amores servis
Ressuscita-me
Para que ninguém mais tenha
De sacrificar-se por uma casa ou um buraco
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja, pelo menos, o universo
E a mãe
Seja, no mínimo, a terra
A terra, a terra

LETRA DE MÚSICA

Quarta-feira, Novembro 4th, 2009

“O amor (ressucita-me), de Orlando Moraes - canta Gal Costa”

Talvez quem sabe um dia…
Por uma alameda do zoológico ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa

Ela é tão bonita
Ela tão bonita que na certa
Eles a ressucitarão
O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias

Agora vamos alcançar
Tudo o que não podemos acalmar na vida
Como estrelar das noites inumeráveis

Ressucita-me
Ainda que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuro

Ressucita-me
Lutando contra as misérias do cotidiano
Ressucita-me por isso

Ressucita-me
Quero acabar de viver o que me cabe, minha vida
Para que não mais existam
Amores servis

Ressucita-me
Para que ninguém mais tenha
De sacrificar-se por uma casa, um buraco

Ressucita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme

E o pai…
Seja pelo menos o universo
E a mãe…
Seja no mínimo a Terra,
A Terra… a Terra

POESIA

Sábado, Setembro 12th, 2009

Amor é um fogo que arde sem se ver
Luís de Camões
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?


POESIAS

Sábado, Junho 13th, 2009

Tenta esquecer-me…
Mario Quintana

 
Tenta esquecer-me… Ser lembrado é como evocar
Um fantasma… Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo…
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se…
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir… é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho…
Deixa-me fluir, passar, cantar…
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar…

POESIA

Sábado, Junho 13th, 2009

CONSELHO… (FLORA FIGUEREDO)
 
Não chore um insucesso,
O que pode parecer um abscesso,
também pode servir de recomeço.
Agarre o desaponto pelo avesso,
apare as pontas,corte o excesso.
Mude a covardia de endereço,
ponha a escavadeira em retrocesso
até que o mundo,esse réu confesso,
lhe devolva seu mel e seu apreço.
Uma vez retomado esse processo,
devolva-me o sorriso que mereço…

POESIAS

Sábado, Junho 13th, 2009

Não sei quantas almas tenho - Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.

Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo    
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : “Fui eu ?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Pensamento

Sexta-feira, Maio 8th, 2009

“Obstáculos são aqueles perigos que você vê quando tira os olhos de seu objetivo.”
( Henry Ford )

TAO TE KING

Terça-feira, Fevereiro 17th, 2009

Lao significa criança, jovem, adolescente.
Tse é um sufixo de muitos nomes que indica idoso, sábio, maduro.
Então Lao Tse (Tzu) pode significar “jovem sábio”.

Lao Tse viveu no século 6º a.C., passou cerca de 40 anos trabalhando na corte imperial da China, como historiador e bibliotecário. Depois disso, diz a lenda, retirou-se, como eremita, para a floresta, onde viveu a segunda metade de sua vida, na cabana onde estudou, meditou, auscultando a voz silenciosa da intuição cósmica, que deixou os seus reflexos no Tao Te King.

Com cerca de 80 anos, cruzou a fronteira ocidental da China, e desapareceu sem deixar vestígio de sua vida. Ao cruzar a fronteira,encontrou-se com o guarda da divisa, que lhe pediu um resumo de sua filosofia. Lao Tse entregou-lhe um pequeno livrinho manuscrito, hoje conhecido como Tao Te King.

Lao Tse admite diversas grafias, como Lau-Tsi ou Tsu, Dau Che Ching, etc.
“Tao” significa absoluto, o Infinito, a Essência, Suprema Realidade, Divindade, etc.
“Te” pode ser traduzido como caminho, diretriz, revelação.
“King” corresponde a livro, documento.
Portanto podem ser traduzidos como “O Livro da Revelação da Essência”.

TAO TE KING

Terça-feira, Fevereiro 17th, 2009

2 - Síntese das Antíteses 

Só temos consciência do belo,
Quando conhecemos o feio.
Só temos consciência do bom,
Quando conhecemos o mau.
Porquanto, o Ser e o Existir,
Se engendram mutuamente.
O fácil e o difícil se completam.
O grande e o pequeno são complementares.
O alto e o baixo formam o todo.
O som e o silêncio formam a harmonia.
O passado e o futuro geram o tempo.
Eis porque o sabio age
Pelo não-agir
E ensina sem falar.
Aceita tudo que lhe acontece.
Produz tudo e não fica com nada.
O sábio tudo realiza - e nada considera se.
Tudo faz - e não se apega à sua obra.
Não se prende aos frutos da sua atividade.
Termina sua obra,
E está sempre no princípio.
E por isso a sua obra prospera.

Poesia

Segunda-feira, Fevereiro 16th, 2009

Poemas Inconjuntos - Alberto Caeiro (Heterônimo de Fernando Pessoa)

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Poesia

Quinta-feira, Fevereiro 5th, 2009

Cântico XIII

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

(Cecília Meirelles)

Poesia

Segunda-feira, Fevereiro 2nd, 2009

“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”

(Trecho do poema “Autopsicografia” de Fernando Pessoa)

Poesia

Segunda-feira, Fevereiro 2nd, 2009

EPIGRAMA No 9

O vento voa,
a noite toda se atordoa,
a folha cai.

Haverá mesmo algum pensamento
sobre essa noite? sobre esse vento?
sobre essa folha que se vai?

Cecília Meireles

POESIA

Segunda-feira, Janeiro 26th, 2009

Abaixo a poesia MARCHA de CECÍLIA MEIRELES

O trecho destacado em rosa seviu de inspiração para Fagner compor Canteiros, lançada no disco “Manera Fru Fru Manera” de 1973.

Em função da alteração não autorizada do poema MARCHA, um briga judicial de muitos anos foi travada entre o compositor e os herdeiros da poetisa. A briga teve fim após um acordo judicial e a regravação da música em 2000.

Canteiros é a mistura de três fontes: O poema “Marcha” de Cecília Meireles e as músicas “Na Hora do Almoço” de Belchior e “Aguas de Março” de Tom Jobim.

 

MARCHA - CECÍLIA MEIRELES

As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola do vento
quebraram as formas do sono
com a idéia do movimento.
Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns vivos pela tona,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.
Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga é tudo
que tenho entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.

 

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudades;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos tristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.

NA HORA DO ALMOÇO - BELCHIOR
No centro da sala,
diante da mesa,
no fundo do prato,
comida e tristeza.
A gente se olha,
se toca e se cala
E se desentende
no instante em que fala.
Cada um guarda mais o seu segredo,
sua mão fechada
sua boca aberta
seu peito deserto,
sua mão parada,
lacrada,
selada,
molhada de medo.
Pai na cabeceira: É hora do almoço.
Minha mãe me chama: É hora do almoço.
Minha irmã mais nova, negra cabeleira…
Minha avó me chama: É hora do almoço.

 … E eu inda sou bem moço
pra tanta tristeza.
Deixemos de coisas,
cuidemos da vida,
senão chega a morte
ou coisa parecida,
e nos arrasta moço
sem ter visto a vida
ou coisa parecida aparecida

 
 
 

 

Poesia

Quinta-feira, Dezembro 4th, 2008

SE TU VIESSES VER-ME… 

 

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

A essa hora dos mágicos cansaços,

Quando a noite de manso se avizinha,

E me prendesses toda nos teus braços…

 

Quando me lembra: esse sabor que tinha

A tua boca…o eco dos teus passos…

O teu riso de fonte…os teus abraços…

Os teus beijos…a tua mão na minha…

 

Se tu viesses quando, linda e louca,

Traça as linhas dulcíssimas dum beijo

E é de seda vermelha e canta e ri

 

E é como um cravo ao sol a minha boca…

Quando os olhos se me cerram de desejo…

E os meus braços se estendem para ti…

 

Florbela Espanca - Poeta Portugesa.